Polo energético nacional: o Nordeste como protagonista do século 21

Data centers de escala global, mineração de baixo carbono, hidrogênio verde (H2V), eletrificação veicular e a revolução dos fertilizantes. O que antes parecia uma lista de desejos para o futuro distante, hoje compõe importante pauta econômica brasileira, tendo o Nordeste como epicentro.

A região, historicamente vista sob o prisma da escassez, consolidou-se como a maior fronteira de abundância energética do país, e agora enfrenta o desafio de transformar essa energia em desenvolvimento industrial tangível e riqueza retida no território.

Recentemente, projetos de magnitude bilionária começaram a redesenhar o mapa de investimentos da região. No Rio Grande do Norte, projetos de hidrogênio verde na ordem de R$ 12 bilhões prometem não apenas a exportação de combustível limpo para o mercado europeu, mas também o processamento e a produção de insumos para fertilizantes.

Em um país que importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, a produção potiguar e regional surge como uma questão de soberania nacional e segurança alimentar.

Simultaneamente, o governo do Ceará anunciou um marco para a economia digital: um projeto de R$ 200 bilhões para a instalação do maior data center da América Latina, com uma demanda de 200 MW de processamento.

A escolha não é por acaso. Data centers são, em essência, grandes consumidores de energia. Ao posicionar esses equipamentos no Nordeste, o estado aproveita a conectividade dos cabos submarinos e a oferta de energia renovável para atrair a infraestrutura que sustentará a inteligência artificial e o big data nas próximas décadas.

No setor mineral, a mudança é igualmente profunda. Empresas que operam minério de ferro na região, tradicionalmente voltadas para a exportação da commodity bruta, estudam agora o pré-processamento com uso de H2V.

A substituição do gás natural pelo hidrogênio verde na redução do minério permite a produção do chamado “aço verde“. Essa agregação de valor antes da exportação é o que separa uma economia extrativista de uma economia industrial moderna e sustentável.

A microeconomia também sente os reflexos. A região apresenta os maiores índices de irradiância do Brasil, o que tem gerado uma corrida acelerada pela geração solar própria (GD). Este movimento está intrinsecamente ligado à eletrificação veicular.

O consumidor nordestino percebeu que produzir a própria energia para abastecer o veículo não é apenas uma escolha ecológica, mas uma decisão financeira estratégica que reduz drasticamente o custo de vida e logística.

Entretanto, esse potencial esbarra em gargalos estruturais. A enorme produção de energia limpa do Nordeste muitas vezes fica retida devido às limitações de transmissão do Sistema Interconectado Nacional (SIN) para outras regiões.

nesse ponto que o problema se converte em estratégia e oportunidades: se não podemos escoar toda a energia, devemos consumir na origem. O escoamento do excedente não deve ser a única meta; a atração de indústrias eletrointensivas para o lado dos parques eólicos e solares é o que garantirá a industrialização regional.

O Nordeste, que já viveu ciclos econômicos baseados no açúcar, no algodão, na pecuária, no petróleo, dentre outros, é novamente convidado a ser o polo energético nacional. Mas desta vez, a cadeia de produção e consumo deve ser integrada.

Este cenário serve como base de estudo fundamental para empreendedores que buscam investimentos de longo prazo. Contudo, o sucesso dessa jornada depende de política pública. Em 2026, ano em que o país redefine seus executivos estaduais e federais, a pauta energética deve ser o tema dos debates.

Os novos governantes terão o dever de preparar os estados para o período pós-2030. Se na última década a política de comunicação era focada na atração de empresas de geração (leilões de energia), essa fase está superada.

O Nordeste já provou que sabe gerar. Agora, o foco deve ser a internalização do valor. Energia é o principal ativo de atração de investimentos e capacidade de negociação geopolítica. Tratar o Nordeste apenas como uma “grande bateria” para o Sudeste é reduzir a região, novamente, a um papel subalterno e extrativista.

A região demonstrou resiliência e capacidade de mutação. A cadeia produtiva do setor eólico, por exemplo, já possui uma base sólida de fornecedores e mão de obra qualificada no território nordestino.

Esse know-how deve agora ser transposto para o hidrogênio e para a indústria química verde. A estabilidade meteorológica, a logística portuária privilegiada e a proximidade estratégica com a América do Norte, Europa e África colocam o Nordeste em uma posição que poucos lugares no mundo podem ostentar.

Contudo, o caminho não está livre de incertezas. O cenário regulatório ainda tateia sobre o mercado de carbono e as diretrizes do H2V.

Além disso, sinais contraditórios do governo federal, como o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) que destinou cerca de 19 GW para geração fóssil, acendem um alerta. O discurso de transição energética com o incentivo à fonte térmica fóssil, observado no LRCAP. Esse questionamento é vital para garantir que a política energética brasileira não sofra retrocessos.

O momento é de cobrança e clareza. O setor energético precisa se apresentar aos candidatos e à sociedade não apenas como um gerador de impostos, mas como o motor de uma nova classe média industrial no Nordeste.

É necessário demonstrar que a expansão da matriz limpa resulta em modicidade tarifária para o cidadão e em um compromisso socioambiental inegociável. O Nordeste do século 21 é convidado à além de produzir energia, quer processar os dados, produzir o aço, fabricar o fertilizante e ter protagonismo na economia de baixo carbono global.


Darlan Santos é presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne). (Artigo publicado originalmente pela Agência Eixos)

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